segunda-feira, 13 de outubro de 2008

BICHO-PAPÃO

lisieux

Noite, negrume
sombras na parede...
Vento nas cortinas,
sons de assombração.
Gemidos sufocados,
susto nas retinas
lábios secos, sede,
dor no coração...

Eu não temo os mil demônios
que assolam a escuridão...

A causa da minha insônia,
da aflita taquicardia,
do choro e melancolia
que me roem o coração,
não é o medo da noite
nem minha triste impotência...

O que temo é a solidão...

E apenas a tua ausência
é o meu bicho-papão.

BH – 24.01.07

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

CENA URBANA

lisieux

MOTE: "Ninguém percebeu
a cor do sangue que sujava a imagem" (Regina Más)


a falta de coragem,
de ânimo, amor,
impedia os passantes
de enxergarem a cena,
a cor do sangue, da pele,
da dor, da omissão...

Nem polícia, resgate,
SAMU, rabecão...
nem padre ou pastor
pra dizer oração

apenas os passos do povo apressado
os olhos toldados no sol de verão

sequer um cachorro a farejar
o corpo caído
em putrefação...

o sangue secando na rua
já não tinha cor...
vermelha a falta de vergonha.

BH - 20.10.07